Reunião de Vini com empresa vencedora da licitação do transporte provoca pedidos de CP
- Adriano Novo

- há 6 horas
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Vereador esteve na sede da Smile Transportes e saiu do local com caixa preta de conteúdo desconhecido

A Câmara Municipal de Campinas recebeu três pedidos de instauração de Comissão Processante (CP) para apurar eventual prática de improbidade administrativa por parte do vereador Vini Oliveira (Cidadania). Os pedidos foram feitos após vídeos de câmeras de segurança registrarem o parlamentar em um encontro no escritório da Smile Transportes, empresa que faz parte do grupo da Rhema Transporte, uma das vencedoras da licitação do transporte público de Campinas. O vereador recebeu dois pacotes, que foram guardados em uma caixa preta e levados embora por ele e seu chefe de gabinete, Marco Antônio Castigleri.
Esse tipo de procedimento pode, ao fim da tramitação, resultar em cassação de mandato, caso seja admitido pela Câmara e aprovado pelos vereadores. Essa não é a primeira vez que o vereador enfrenta problemas na Câmara Municipal.
Segundo nota divulgada pelo Legislativo, o primeiro documento é de autoria da vereadora Mariana Conti (PSOL), que relata denúncia veiculada em reportagem por uma emissora de televisão, segundo a qual o parlamentar teria sido flagrado em empresa de transporte no início de abril, menos de um mês após o leilão da concessão do transporte público municipal. No texto, a vereadora aponta que “Vini Oliveira teria comparecido ao local, participado de reunião com outras pessoas e deixado o ambiente portando caixa, sacola, envelopes ou malote de conteúdo não esclarecido”.
O segundo pedido de autoria do ativista Adriano Vieira Novo tem o mesmo teor da denúncia apresentada por Mariana Conti. O terceiro pedido de Comissão Processante, assinado por Aparecido José de Oliveira, se refere a outro assunto. Desta vez seria a contratação de uma funcionária para atuar como assessora parlamentar, mas que sem que a mesma prestasse serviço no gabinete dele.
Nas redes sociais, Mariana afirmou que o parlamentar precisa dar explicações sobre o episódio. “O vereador Vini Oliveira, que se vende como ‘o fiscalizador’, agora precisa explicar por que apareceu saindo com um malote misterioso da empresa de transporte vencedora da licitação!”, disse. A parlamentar também disse ter apresentado o pedido diante da gravidade das imagens e das suspeitas levantadas. “Quem cobra transparência dos outros também deve satisfações à população! Campinas merece respostas. Afinal: o que tinha no malote?”, publicou.
A Procuradoria Jurídica da Casa vai analisar os pedidos para verificar primeiro a legitimidade e se as solicitações atendem os requisitos do decreto-lei número 201/67. De acordo com a legislação, se os processos estiverem corretamente instruídos, as admissibilidades das propostas têm obrigatoriamente que ser lidas e apreciadas em plenário pelos vereadores na primeira Reunião Ordinária subsequente à apresentação do protocolo, que seria, portanto, nesta segunda-feira, dia 1°.
Para as denúncias serem aceitas, é necessária a concordância por maioria simples dos parlamentares presentes em plenário. Se forem recebidas, as Comissões Processantes serão constituídas por três vereadores definidos por sorteio. Caso contrário, serão arquivadas. Como acusadora de um dos processos, Mariana Conti não poderá participar da votação do pedido de Comissão Processante protocolado por ela. Em seu lugar será convocado o suplente do partido.
VÍDEOS
Pelas gravações das câmeras de segurança, recebidas pela reportagem do Correio Popular, é possível verificar que, no dia 1º de abril de 2026, o vereador chega ao local em um veículo preto acompanhado por seu chefe de gabinete, Marco Antônio Castigleri, às 16h11. Depois, por outra câmera, é possível aferir que o vereador, junto de seu assessor, chegam à sala de reunião, às 16h20, onde são recebidos por três homens, ligados à empresa de transporte.
Às 18h07, um dos homens montou uma caixa preta em cima da mesa de reunião. Ele sai do quadro da imagem e retorna com uma sacola roxa, que é entregue para o homem que conduziu a reunião, Emerson de Jesus, presidente da Rhema Transportes. Por sua vez, ele a abre e retira dela o que parece ser dois envelopes e um celular, o aparelho é entregue ao chefe de gabinete e os dois pacotes são guardados dentro da caixa preta pelo próprio anfitrião da reunião. Entre os assuntos abordados na reunião está a votação do projeto de lei que estendeu os contratos mantidos pela administração municipal com os atuais operadores do sistema de transporte de Campinas. Os empresários discutiram com o vereador a possibilidade de reduzir o prazo de 3 anos fixado inicialmente no projeto, que acabou reduzido para dois.
Marco Antônio guarda um calhamaço de papéis que tem em mãos na caixa. Após fechála ele volta para se despedir dos presentes. Ao final da reunião, Vini Oliveira segue para o carro ao lado do assessor, que carrega a caixa preta e a guarda no banco de trás do veículo. Eles deixam a empresa às 18h14.
Em 2 de abril, um dia após a reunião, Vini divulgou um vídeo em suas redes sociais afirmando ter material que comprovaria irregularidades na atuação das empresas que gerenciam atualmente o transporte na cidade. Os documentos apresentados no vídeo são semelhantes aos que ele recebeu durante o encontro na sede da Smile Turismo.
Vini Oliveira utilizou sua conta no Instagram para se pronunciar sobre o caso. No vídeo, ele alegou que recebeu documentos, assim como divulgado em um vídeo na rede social no dia 2 de abril, sobre denúncias que envolvem o transporte público de Campinas. De acordo com Oliveira, tais documentos foram encaminhados ao Ministério Público de São Paulo (MPSP). Ele também mostrou os supostos envelopes recebidos na reunião, neles estariam drives com as mesmas denúncias em versões eletrônicas. “Eu não prevariquei, não tenho nada a esconder. (...) Foram duas visitas à empresa, como visitante, para verificar como a empresa opera o transporte em Paulínia”, justificou o vereador.
Fabiano Pereira, cientista político e doutorando pela Unicamp, afirmou que esse comportamento, de utilizar as redes sociais para respostas oficiais, faz parte de uma lógica política baseada na comunicação direta com os apoiadores. “Eles quebram e aproveitam o espaço da internet como uma ferramenta de diálogo diretamente com o público”, explicou. O cientista político destaca que muitos desses agentes públicos dialogam com um eleitorado que também demonstra desconfiança em relação à imprensa tradicional. “É o mesmo público que critica a mídia tradicional, dizendo que favorece candidato A ou candidato B”, pontuou. Ainda assim, ele ressalta que a reação dos eleitores não é uniforme: “Tem gente que vai defender, mas outros vão dizer: ‘é mais um que se diz fora da política, mas repete as mesmas práticas’”.
Pereira ponderou que o uso das redes sociais como principal ferramenta de comunicação política não é necessariamente prejudicial à democracia, mas considera preocupante quando há um discurso sistemático de deslegitimação da imprensa. “Não existe democracia sem liberdade de imprensa”, afirmou. Na avaliação dele, os veículos de comunicação exercem um papel essencial de fiscalização e de mediação entre o poder público e a sociedade. “Os meios de comunicação são canais de diálogo entre a sociedade e o poder público”, disse. Por outro lado, ele observa que políticos que adotam uma postura crítica à mídia acabam fortalecendo o vínculo com parcelas do eleitorado que compartilham dessa mesma visão, utilizando esse embate como estratégia de mobilização política.
HISTÓRICO DO VINI
O vereador Vini Oliveira (Cidadania) esteve no centro de diferentes episódios polêmicos. Além de ter sido alvo de uma Comissão Processante (CP) que o absolveu de acusações de abusos durante uma fiscalização no Hospital Dr. Mário Gatti, o parlamentar também foi citado em outras denúncias encaminhadas à Corregedoria da Casa entre fevereiro e junho de 2025. Entre os casos que avançaram no órgão parlamentar estão questionamentos sobre sua conduta em fiscalizações realizadas na Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas e no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH-Unicamp).
No primeiro episódio, Vini recebeu orientação formal sobre a maneira adequada de conduzir fiscalizações, enquanto o caso envolvendo a universidade ainda aguarda providências da Corregedoria. O vereador também foi alvo de representações protocoladas pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), mas parte das denúncias não prosperou por questões regimentais previstas no Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara.




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